Carlota era uma mulher muito estranha e misteriosa. Seu humor mudava como as fases da lua. Ninguém sabia sobre seu passado. Administrava muito bem o cabaré. Adorava jóias e roupas caras. O cabaré era um lugar muito alegre e havia boa música todas as noites. Lindas bailarinas. Joseph , um senhor calado e discreto tocava o belo piano de cauda. As risadas entoavam das mesas onde as mulheres sorriam. Os lábios de batom vermelho acompanhavam um olhar malicioso. Os homens tinham que beber bastante e gastar no bar. Depois, subiam as escadas onde a madrugada os esperava. Eram homens novos, solteiros, casados. Ricos ou pobres, mas desde que tivessem boa moeda para gastar no cabaré. A crise no país se espalhava. A situação do país não era boa.
Meu relacionamento com Madame Carlota era aparentemente bom. Bastava seguir todas as suas ordens. Contrariar a madame era ter uma inimiga. Meu objetivo era juntar dinheiro e ter minha própria vida mesmo com a marca de ter sido cortesã. Carlota administrava nossos ganhos e boa parte ficava com ela. Sabia justificar sua porcentagem. As mulheres tinham boa alimentação e quartos confortáveis. No entanto, não havia liberdade. Uma liberdade suspeita e vigiada.
Nossos passeios eram controlados. Saímos do cabaré acompanhados por Breno e Louis. Eram homens
troncudos e mal falavam. Carlota justificava que estava cuidando da nossa
proteção. Na verdade, as meninas praticamente viviam num regime de semi
escravidão. A senhora afirmava que estava ajudando as pessoas, porque a maioria
das jovens que lá viviam eram muito pobres. E, quando estivessem maduras, poderiam
seguir o caminho delas, mas não era isso que eu presenciava. Uma mulher sem família, sem dote, sem nome, não tinha muito futuro naquela época.
Fiz
amizade com Vivian uma linda jovem de
vinte anos. Ela era muito bonita, de olhos castanhos e cabelos escuros que
caíam lisos até à cintura. Tínhamos muita coisa em comum: o desejo
de viver uma nova vida e sair daquele lugar.
Vivian se apaixonou por um
jovem bonito e alto. Ela me contou que eles combinaram fugir juntos. Allan tinha olhos vivos e um
jeito encantador. Dava boas gorjetas para Carlota e bebia muito no
cabaré.
As meninas contavam que ele era
um ladrão muito esperto. Diziam que ele era mentiroso e falso.
Uma manhã, procurei Vivian em seu quarto e não a encontrei. Fiquei feliz por ela. Carlota
ficou muito nervosa e revoltada com a fuga. Seu rosto frio mudava de expressão quando perdia uma jovem. Vivian era muito jovem e belíssima. Durante algum tempo, o ambiente do cabaré ficou diferente e estranho. Cochichos. Segredos. Ninguém sabia o paradeiro da bela Vivian. Teria seguido com seu amor?
Não tive mais notícias de Vivian. Dias depois
percebi o ambiente muito tenso e as
meninas muito alvoroçadas. Marie segredou:
"- Vivian está morta! Foi encontrada
morta numa estrada e estava machucada!" - Marie também gostava de Vivian.
"- Mas e Allan? Eles iriam se casar, Marie!”
- senti uma dor no peito muito forte. Marie
afirmou:
"- Não
sei! Ela fugiu com um ladrão! Aqui tinha tudo! Ouvi dizer que Allan foi embora para muito longe e nem veio buscá-la.” - eu abaixei a
cabeça. Carlota ouviu nossa conversa:
“-Meninas,
vocês não sabem o que pode acontecer quando saem daqui! O mundo é mau! - seus
olhos brilharam. Eu mudei de assunto! ”.
Jamais esqueci Vivian e, nas minhas preces, orava
por ela. Será que a bela Vivian tinha sido assassinada pelos bruta montes Breno e Louis? Por que tamanha covardia? O assunto foi comentado durante alguns meses. A polícia estava investigando a morte misteriosa da bela mulher. Ninguém reclamou seu corpo.
Aprendi muita coisa no cabaré: como atrair os homens, ganhar mais dinheiro e evitar filhos. Uma gravidez no cabaré? Nem pensar. Havia uma mulher que aparecia sempre quando uma cortesã "adoecia." Uma jovem morena de apelido Bella começou a ter enjôos frequentes. Ela sempre ficava no bar com Lino, um homem casado. Ele tinha muito dinheiro e gastava muito no cabaré. Bella se apaixonou. Éramos educadas para trancar o coração. Lidar com sexo era uma coisa; amor era proibido. Como trancar o coração? Bela começou a ouvir as promessas do seu amante. Carlota estava preocupada. Alguns homens queriam se deitar com ela, mas Bella rejeitava. Uma noite, Carlota conversou com Lino. E, no final, fizeram um trato. Bella era somente de Lino desde que ele pagasse muito mais por ela. Bella ficou muito feliz! Seus olhos negros brilhavam. Esse brilho sinalizava a paixão de uma mulher. Eu sentia arrepios! Jamais me apaixonaria por homem nenhum. Mal sabia que o amor estava prestes a acontecer na minha vida.
Bella ficou grávida de Lino. Não queria perder o nenê. Queria ter o filho do seu amado Lino. Contou para ele. No dia seguinte, ela desceu as escadas com o rosto sombrio e os olhos inchados. Lino nunca mais apareceu no cabaré. Bella chorou semanas seguidas. As promessas se transformaram em desilusão.
Mesmo assim, queria ter o bebê, mas Carlota não concordou. Afirmou que o cabaré não era lugar de crianças. Bella fez um aborto. Adoeceu semanas seguidas. Teve depressão! Pensei que ela iria morrer, mas não morreu. A dor transformou sua alma. Seus olhos românticos adquiriram um brilho diferente. Os lábios bem feitos nunca mais sorriram. Tentei me aproximar dela, mas Bella se fechou para a amizade também. Era muito procurada no cabaré. Sabia cantar muito bem e encantava os homens com sua voz rouca e sensual. Um dia, um homem calvo e elegante apareceu no cabaré. Sentou-se sozinho a uma mesa. Bebericou uísque. Fumou cigarrilhas e ficou apreciando a voz maviosa de Bella. Horas depois, ele procurou Carlota. Foram para o escritório.
No dia seguinte, Bella desceu as escadas. Havia um sorriso no seu rosto triste. Ela iria partir. Conseguiu um contrato para cantar. Quando chegou no salão se despediu de todas. O homem elegante apareceu para buscá-la. Fiquei contente por ela! Meses depois, fiquei sabendo que Bella cantava em óperas e cafés luxuosos.
No entanto, a sorte das mulheres da vida era marcada por um prazer falso e muito sofrimento. Algumas jovens afirmavam que gostavam do que faziam. Gastavam seu dinheiro em jóias, roupas e bons perfumes. Adoravam encantar e seduzir os homens. Amavam a bebida e a boa música. No entanto, beleza e juventude não duravam para sempre. Elas afirmavam que não pensavam no futuro. Eu pensava e muito. Alguns anos se passaram. Eu era uma bela mulher. Meus cabelos cresceram e meu corpo adquiriu belas formas. Atraía muitos homens, mas não gostava de beber. Marie sempre me observava. Nada fiz para ela, mas vivia me perseguindo. Gostava de fazer intrigas a meu respeito. Tinha inveja. Gostava de se vestir como eu. Invejava minha popularidade no cabaré. Eu tratava a todos com muito respeito desde a velha cozinheira até o jardineiro. Esse era meu jeito.
"-Madeleine, está fazendo sucesso com os homens!- comentava Marie. -Quando chegou aqui parecia uma menina boba e sem graça.-não revidava seus comentários maldosos. No entanto, o destino estava só começando a escrever minha história. O ódio de Marie só podia vir de outras vidas. E, não era por acaso, que ela estava naquele ambiente. Precisávamos resgatar alguma coisa.
Quando eu morava com minha mãe tinha muito fé nos santos e em Deus. Via minha mãe rezar o terço. Gostava muito quando ela nos chamava para rezar o terço. Ela rezava antes das refeições. Nossa casa era muito limpa e agradável. Minha mãe era tudo para mim. Essa decepção deixou marcas no meu coração. Não a perdoava de jeito nenhum. Eu tinha um terço nos meus guardados, mas jamais rezei. Perdi a fé em Deus. Se minha própria mãe me abandonou o que poderia esperar das pessoas? Nada.
Gostava de passear no bosque do cabaré. Fazia passeios e contemplava a natureza. No entanto, sempre que eu saía para dar caminhadas me sentia seguida. Quando olhava para trás, lá estavam Breno e Louis. Ficavam de longe me observando.
A solidão é muito difícil. Não tinha amigas no cabaré. Era uma disputa febril pelo homem mais rico, por mais clientes e por mais popularidade. Marie sempre observava a minha mesa. E achava um jeito de fazer intrigas contra mim. Carlota sempre me chamava a atenção. Insistia que nossa função também era fazer os homens gastarem muito no bar. E como eu não apreciava bebida alcoólica tudo ficava mais difícil. Comecei a beber.
Minha mãe me contou que meu pai bebia muito e , por causa disso, ele foi embora de casa. A lembrança do meu pai era vaga e distante. Lembro-me de um homem que sempre aparecia em casa, mas não morava com minha mãe. Ela sempre o agradava com boa comida. Eu não gostava dele.Chegava sempre alcoolizado e me pegava no colo. Não gostava do seu cheiro. Minha mãe queria que a gente o tratasse bem. Meu pai não tinha dinheiro, porque gastava tudo em bebida. O máximo que ele fazia por nós era trazer um fardo de fubá, batatas e milho. Às vezes, ele trazia carne também. Era tão raro comer carne!
Um dia, ele apareceu muito bêbado em casa. Quebrou o pouco que tínhamos. Houve uma discussão muito acalorada. Minha mãe chorava e gritava. Nós ficamos no quarto. Eu tremi tanto que fiz xixi nas calças. E, pela primeira vez em minha vida, senti muito medo do meu pai. Era um medo tão forte que fiquei muitos dias sem dormir. Quando eu dormia sonhava com meu pai me batendo. Ele nunca havia batido em nós, mas aquela briga foi inesquecível.
Beber no cabaré era um suplício para mim. No entanto, não exagerava. Bebia apenas para acompanhar o cliente.
E minha vida seguia...Até que Violet apareceu!
Madeleine