quinta-feira, 18 de julho de 2013

Madeleine- II



  




         Quando minha mãe me deixou no cabaré eu era praticamente uma criança. Meus seios  formados. Eu era uma mocinha que gostava de brincar de bonecas no quintal da minha casa. Não tinha muito conforto. Dormíamos no mesmo cômodo, mas não faltava o que comer.



            Eu era a mais bonita dos meus irmãos. Nunca mais os vi. Meu irmão mais velho saiu de casa para arrumar trabalho. Disse que voltaria para ajudar minha mãe, mas nunca mais voltou.



          Aquele primeiro dia no cabaré marcou minha vida profundamente. Deixou marcas nas minh’alma. Ressentimento. Ódio. Dor. Abandono. Mãe é tudo. Mãe é um pedacinho de Deus na Terra. Antes de partir minha mãe me beijou. Eu me agarrei às suas saias e chorei muito. Gritei e chorei enquanto Carlota olhava com ar impassível. Seu olhar era frio e quase irônico. Ela saiu um pouco e voltou com doces e balas. Tentou me distrair e conversou comigo. Foi o tempo necessário para minha mãe ir embora para sempre.

      

           Chorei dias seguidos. Enquanto era muito nova ajudava nos serviços caseiros. Carlota me agradava demais, mas eu chorava todas as noites. Queria estar em casa com minha boneca de pano. Carlota dizia que eu me transformaria numa linda mulher. Marie era a queridinha de Carlota. Era sensual e de olhos grandes e vivos. As outras moças eram muito bonitas e jovens. Gostavam de cantar e passavam a manhã toda dormindo.



        Durante a noite, o cabaré se transformava. Os homens chegavam e ocupavam as mesas. As mulheres gostavam de se vestir de vermelho. Algumas fumavam muito. Bebiam também. Carlota pedia que eu ficasse no quarto. Eu achava que estava protegida e segura, mas Marie me explicou tudo. Contou que aquele lugar não era um parque de diversões. E, quando eu estivesse  adaptada teria que agradar os homens.



      E alguns anos se passaram. Minhas formas ficaram mais definidas. O meu cabelo cresceu. Os meus olhos continuavam perdidos e o coração muito triste. Perguntava sobre minha mãe e ninguém sabia onde ela estava. Tentei fugir, mas foi em vão.



     Meu coração era puro e meu corpo também. E a ideia de me deitar com os homens me dava asco e medo. Não sabia como minha mãe conseguia dinheiro para nos sustentar, mas nunca a vi fazendo nada de errado. De vez em quando, ela voltava para casa com uma sacola de mantimentos. Havia uma vizinha que nos ajudava muito. Por que ela me abandonou? Onde estavam meus irmãos?



    Agora, se eu pudesse conversar com todas as mulheres que vivem na prostituição me sentiria aliviada. Vender o corpo custa a paz d’alma. No entanto, às vezes, o destino leva algumas mulheres para esse caminho. Algumas almas femininas são puras, mas caem nessa vida. O dinheiro pode vir rápido, mas é um caminho perigoso e cheio de atalhos. E, nem sempre, esses atalhos são floridos.



      Os espíritos desencarnados trabalham muito no plano espiritual. Agora, de vez em quando, posso ir para a crosta terrena. Minha mentora espiritual Adele vai comigo. Posso ajudar em algumas tarefas. Uma noite, descemos na crosta terrena. O ambiente espiritual da Terra é muito penoso. O ar me sufoca. A lembrança vem. Fui levada a um prostíbulo próximo a uma favela. O lugar era escuro e feio. Entrei e Adele me explicou o que íamos fazer.



    Uma jovem muito bonita estava deitada numa cama. Ardia em febre. Parecia muito doente. Estava com doença sexualmente transmissível. Havia contraído AIDS por conta da prostituição. Não usava preservativo. Fazia quase vinte programas por dia. Vivia na rua até ser encontrada por um cafetão. Seu rosto  macilento, cabelo era ralo, mas bem loiro. Adele me explicou que nossa função era inspirar algumas mulheres do cabaré para internarem a moça. E foi o que tentei fazer. Havia um pedido da mãe dela que já estava no plano sideral.



   Eu me lembrei da minha juventude no cabaré ao me deparar com aquela moça. Vou chamá-la de Maria. Ela abriu os olhos e soltou um grito. Estava tão fraca que seu espírito estava parcialmente desligado da matéria.



  - Fantasmas! Fantasmas!- gritava. Eu comecei a chorar de compaixão. Adele explicou que eu devia me controlar para que pudéssemos ajudar a pobre moça. Alguém entrou no quarto. Era um homem muito forte e de barriga saliente. Senti hálito de bebida alcoólica. O homem resmungou:



  - Morre logo, sua puta! Morre logo porque está nos causando problema. – Adele impôs as mãos sobre ele. O homem colocou a mão no peito e pensou:



 “- Estou com mal estar. Que sensação ruim! Para de gritar, sua vagabunda! - ele gritou e saiu do quarto. Na hora senti raiva daquele cafetão. E, novamente, Adele me censurou:



  - Está aqui para ajudar e, não para julgar quem quer que seja. – eu engoli meu pranto.



  - O que vamos fazer, Adele? – perguntei preocupada. Maria fechou os olhos e se encolheu na cama. Adele me pediu para segui-la. Rapidamente chegamos à cozinha do prostíbulo. Uma senhora gorda e baixa lavava pratos e cantarolava baixinho. Era mulata, mas tinha uma vibração suave. Adele se aproximou dela e murmurou:



  - Maria precisa ir para o hospital! Ajude-a! Eu sei que você gosta dela! Sei que seu coração é bondoso!- a senhora parou de cantarolar. Ela não viu nossa presença, mas imediatamente foi até o quarto da jovem Maria. Sentou-se à sua cabeceira e colocou a mão na destra da moça:



  - Maria, você está ardendo em febre! Tem emagrecido muito! Oh, meu pai Oxalá, o que eu faço? – Adele novamente a inspirou. A cozinheira voltou para o salão. Aproximou-se do cafetão e murmurou algumas palavras. Adele e eu ouvimos tudo:



  - Mauro, Maria está morrendo! Por favor, chame uma ambulância! Se ela morrer aqui você terá problemas com a polícia.



  - Cozinheira burra, volte para seu trabalho!- o som estava muito alto. Alguns homens riam muito e bebiam. O ambiente estava muito ruim. Enquanto todos bebiam, alguns espíritos ficavam por perto. Eu estava sufocada. Queria ir embora.



  O brutamontes concordou.  A ambulância foi chamada, mas antes o homem desligou o som. Pediu que todos fossem embora. Alguns homens protestaram, mas se afastaram.



  Ele fechou o salão com as cortinas. E a casa parecia uma casa comum. A safadeza daquele homem me deu náuseas. As mulheres se trancaram nos seus respectivos quartos. Tudo era muito escuro , cheirava a mofo e cigarro.



  Fomos juntas com Maria na ambulância. Eu me senti aliviada. Pensei como seria bom se ela morresse, pelo menos teria paz. Adele percebeu meus pensamentos e me corrigiu:



  - Ela vai se tratar. Não vai partir agora!

  

  Maria foi internada. Pediu que chamassem o pai dela. Dias depois, um senhor bem magro chegou ao quarto de hospital. Ficou assustado ao ver a aparência da sua filha única; magra, pálida e fraca. Os dois se abraçaram e choraram muito. Maria fugiu de casa para ir para a cidade grande. O pai morava na roça. Maria tinha sonhos de grandeza e tudo o que conseguiu na sua empreitada foi uma doença grave, pobreza e decadência.



  Vinte dias depois, Maria teve alta do hospital. Pai e filha voltaram para a roça. Maria precisava tomar muitos medicamentos.


  Seis meses depois, Maria faleceu de pneumonia. Nós fomos buscá-la. Nossa missão foi cumprida. 

Madeleine


Obs: O roteiro da história será mantido, mas Madeleine está aperfeiçoando o texto. Ela me disse que é um treino para novas histórias. Ela gosta de ilustrar cada texto com música.